Agora em agosto, Flávio Gikovate dará um curso com o seguinte título: “Egoístas, generosos e justos: o amor nas relações do cotidiano”. A idéia é criticar o que eu chamaria de relação de conveniência, aquela na qual o obstáculo de um se acopla com o obstáculo do outro, o karma de um complementa o karma do outro. Gikovate explora as relações de conveniência utilizando o exemplo do egoísta e do generoso e oferece uma saída no que ele chama de relação entre pessoas justas:
“O justo é essencialmente maduro e bem constituído em sua individualidade. Pode muito bem ficar sozinho. Se optar por um relacionamento amoroso, não agirá nem com a imaturidade e dependência prática do egoísta — que costumava ser chamado de tipo narcisista, o que sempre aumentou a confusão a respeito do uso deste termo — e nem com a condescendência que deriva da dependência emocional do generoso. Não terá medo da fusão romântica porque o individualismo predomina sobre o amor. Acabará por estabelecer um novo tipo de aliança amorosa, mais parecida com a amizade — menos possessiva e nada dominadora — que tenho chamado de +amor, ou seja, mais do que amor. Trata-se da proposição de um novo tipo de romance adaptável aos novos tempos, igualitários.” (Gikovate, 2003)
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A relação de conveniência é baseada na mediocridade, no pior de cada ser (quando olhamos para nossas relações, é dolorido perceber como isso é verdade!). Ela não proporciona transformação pois para ser sustentada exige uma espécie de acomodação em nossas fixações neuróticas. Uma pessoa carente, por exemplo, se encanta com aquele que, por medo de ser rejeitado, oferece proteção e segurança de um modo impulsivo e irracional. Elas se apaixonam e se “amam” sem saber por quê.
Não vemos o outro em nenhum momento, pois estamos fascinados pela sensação que ele nos provoca. A prisão narcísica é não amar verdadeiramente o outro, mas o próprio “eu” que ele faz surgir. Contardo Calligaris chama isso de “miséria amorosa ordinária”, na qual “amar significa pedir ao outro o que a gente quer. Ou, pior ainda, pedir-lhe aquela ‘coisa’ de que a gente precisa” (Calligaris, 2005).
Muitas pessoas nunca conheceram uma relação que fugisse a esse padrão. Para elas, a relação de conveniência é tudo o que há, a única possível, onipresente em seus pais, amigos e em todo o ambiente interpessoal ao seu redor. Por isso, é nosso dever dar o exemplo e oferecer ao mundo uma relação de transformação na qual cada um dos parceiros diz: “para te amar eu me transformo, para te amar eu nasço novamente, para te amar eu manifesto o melhor de mim; e ao me transformar eu te amo ainda mais, ao nascer de novo vejo ainda mais sua beleza, ao dar o melhor de mim vejo ainda mais o melhor de você”. Eis o círculo virtuoso do amor, paradoxalmente assim explicado: “eu te amo, e ao te amar acabo te amando ainda mais”.
Enquanto a relação de conveniência já está sempre pronta e estamos sempre preparados para ela, a relação de transformação exige uma construção dedicada, uma forma de treinamento mútuo, de elaboração artística. Não é um caminho fácil mas é o que verdadeiramente desejamos até quando perdemos tempo escolhendo relações tolas que não exigem o melhor de nós. Esse caminho de liberdade e exploração, como bem ensina o poeta Antonio Machado, se faz ao caminhar (”Camiñante, no hay camiño, el camiño se hace al camiñar”). Ainda que o tenhamos construído uma vez com uma parceira, a segunda vez não chega nunca a ser uma repetição, ao contrário do que acontece com relações kármicas.
Prosseguindo com a comparação (pois sempre vemos pelo contraste), percebemos que a relação convencional é uma aproximação simples de mundos: “eu gosto de cinema europeu, você também, eu gosto de música árabe, você também”. Não há real penetração, não há compartilhamento, apenas uma interface cômoda e confortante. Uma outra possibilidade, muito mais deliciosa, é não apenas aproximar os mundos, mas cada um dos parceiros penetrar os mundos do outro e simultaneamente entregar seus mundos para que possam ser invadidos pelo outro. Mais ainda: não apenas abrir-se e penetrar, mas criar novos mundos, dar à luz, engravidar-se do outro e de si mesmo.
Um novo mundo criado a dois é uma das bases de uma relação duradoura e autêntica. O curioso é que, para que isso aconteça, é necessário que cada um dos parceiros se estique, se reconfigure, expanda seu corpo em um novo espaço, enfim… se transforme! Esses novos mundos são espaços nos quais nascemos com novas identidades, são espaços nos quais podemos explorar ainda mais nosso amor, nos permitem ser mais, existir mais, nos conectar de outros modos não só com o outro mas com todo o mundo. Esse é um tipo especial de intimidade a dois que nos deixa íntimos de tudo mais, de todos os seres, de cada cena da vida, de cada olhar e até de nós mesmos.
Será que desejamos manter nossos obstáculos como base de nossos relacionamentos? Queremos amar e ser amados com apenas 20% de nosso ser? Buscamos um parceiro para quê mesmo? Permanecemos com ele por quê mesmo? Quais as bases de nossas relações? Estamos realmente dispostos a abandonar nossas relações de conveniência? Dispostos a nos deixar nascer em frente ao outro e fazê-lo nascer diante de nós, aprendendo lentamente a sonhar juntos?
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