No último post (”Amor é coisa que não se recebe“), falei sobre a dinâmica da passividade e sobre como podemos descobrir nossa potência de amar.
Autonomia, no entanto, não significa auto-suficiência ou isolamento. Quando já praticamos esse amor livre, o que acontece quando iniciamos uma nova relação?
Uma mulher é o grande espaço para um homem praticar amor na sua forma mais incorporada, fascinante e desafiadora. Ele pode não precisar de uma mulher para ser feliz, porém a entrega feminina é o convite perfeito para que ele penetre tudo com seu amor e treine sua liberdade de se manter imóvel diante das tempestades e oscilações do feminino. Isto é, ele pode ser mestre em técnicas de apnéia, mergulho, canoagem ou surf, mas como praticar sem rios e oceanos?
Um homem, por sua vez, é também apenas um suporte para a mulher que se descobriu fonte de amor, que ficou inseparável da própria dança da vida. Ainda que ela não precise do amor de seu homem, é quando ela é conduzida com leveza e vigor que sua capacidade de entrega, radiância e amor pode se expressar desimpedidamente. Em outras palavras, ela pode saber movimentar seu corpo de mil maneiras no samba de gafieira, mas é preciso que haja música, espaço e alguém para conduzi-la.
O masculino precisa tocar o feminino para vir à tona e existir com força total. O feminino chama pelo masculino para conseguir saltitar e se desenrolar com toda a energia que a vida pode agüentar.
A autonomia do amor se expressa quando o amor não vai nem vem, nem se dá tampouco se recebe. Primeiro, sentimos o amor vindo de fora, recebemos e nos sentimos amados. Depois, percebemos que podemos agir, sentimos o amor por dentro e o expandimos aos outros. Até que, enfim, caímos sentados sobre a ilusão de nossas paredes e nos abandonamos dentro do amor. Paramos de tentar e deixamos o amor com ele mesmo… Depois dessa desistência, não há mais esforço para amar o outro. Há o amor e sua circulação, muito bem descrita pelo mestre zen Shunryu Suzuki na obra-prima Mente Zen, Mente de Principiante:
“O mundo interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos “mundo interior” e “mundo exterior”, mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa “eu respiro”, o “eu” está a mais. Não há um “você” para dizer “eu”. O que chamamos de “eu” é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo.”
Essa respiração do amor move homens e mulheres de modos distintos. Ainda que, de uma perspectiva absoluta, não haja eu e outro, vida e morte, dentro e fora, nos mundos relativos há uma dinâmica lúdica entre os opostos. A não-dualidade é apenas o pano de fundo para incontáveis dualidades e pares de seres e fenômenos que vão surgir em cada vaivém. Ora, esse movimento é tão poderoso que produz bebês, if you know what I mean…
O livre vaivém atua no homem que é capaz de viver com um amor autônomo instalado no meio do peito. Tudo o que ele quer é uma mulher que silenciosamente se entregue: “Eu sou sua, eu me rendo ao amor que vem de você, me conduza, dance comigo”. Ao oferecer seu melhor, ele faz uma exigência sutil. Sua proposta não aceita nada menos do que a completa liberação de todas as energias, ânimos e curvas que ela tem a oferecer.
Uma mulher cujo brilho é sua forma de amar os outros sem que ela sequer tenha de se aproximar de alguém, tudo o que ela quer é um homem que chegue sem pedir licença: “Eu me livrei do medo e quero ver até onde vai sua beleza. Se você já está dançando, pode soltar o cabelo e começar a girar”. Sua presença também exige. Sem liberdade e vigor, dificilmente um homem conseguirá permanecer ao seu lado.
Quando eles se encontram, a profundidade masculina é o par perfeito para a radiância feminina. A liberdade dele é o espaço para o espiralar do amor dela. Ele fica, presente, imóvel. Ela dança, graciosa, cintilante. Juntos, eles continuam amando de modo autônomo como já faziam com qualquer um, não há diferença. Movem-se a favor dos outros, para que todos se desdobrem, aflorem. Sem que ninguém nunca chegue a receber algo, ambos sentem prazer ao oferecer amor irrestrito. Um para o outro, e ambos para o mundo.
Na relação lúcida, ainda que a mulher anseie por alguém ou um homem deseje um corpo feminino, quem faz as exigências é o amor, não as identidades específicas ou personagens. Ambos estão rendidos não um ao outro, mas ao amor. Se pudéssemos ouvi-los, seria algo assim: “Aquilo que não sou ama, por mim, em você, tudo aquilo que você não é”.
* A imagem é do gênio M.C. Escher, Drawing Hands (1948). Sou fascinado por ela. Se pudesse, usaria para explicar praticamente todas as idéias que passam pela minha mente.
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