Jantar em silêncio, love-audiotour pela cidade, dança de salão às escondidas, pedido de casamento no meio da Av. Paulista… Saiba tudo o que a Maria Claire nunca contou para você!
O que faz um bom presente ou uma boa declaração é uma mistura de personalização (quanto mais único, melhor), poesia (tem de significar algo além de si mesmo) e inserção na vida da pessoa amada (realização de um desejo antigo, por exemplo). Além disso, se a declaração levar algum tempo e fizer com que você se transforme no processo, aí sim o outro transbordará de felicidade.
Listo abaixo algumas sugestões que contemplam um ou mais desses quatro itens: personalização, poesia, inserção e transformação. Algumas já fiz, outras ainda não. As sugestões se adequam a homens e mulheres. Para facilitar, porém, direcionei minha linguagem ao público masculino.
Deixem suas sugestões nos comentários para enriquecer essa lista!
1. Jantar em silêncio
Conduza-a por um jantar em silêncio repleto de respirações, olhares e toques. Não faça em casa: o ideal é que seja em público, em um restaurante mesmo. Leve um bloco de notas para que vocês se divirtam com bilhetinhos entre si. Ficará ainda mais gostoso se vocês não pronunciarem nenhum som e usarem bilhetinhos até mesmo com o garçom. Não tenham medo do (inevitável) ridículo. E leve a brincadeira a sério, caso contrário a vergonha dela será maior do que a diversão. Ah, você pode ousar até mesmo no simples ato de marcar o encontro…
2. Audiotour pela cidade
Fiquei fascinado com esse projeto da Mostra SESC de Artes de 2007. Um percurso de uma hora no qual as pessoas são guiadas por um MP3 Player e caminham por vários locais da cidade em busca da resolução de um mistério policial. Por que não fazer isso com sua mulher?
Escolha um local, vá até lá para se certificar, volte, abra o Google Maps e use o Audacity para gravar as orientações. Você pode deixar algum presente escondido debaixo do banco de uma igreja, fazer o percurso acabar em um restaurante com você dentro, em um motel ou em uma loja na qual todas as atendentes já estão avisadas: “Olha, eu deixo pago e ela compra o que ela quiser dentro desse valor, pode ser?”.
3. Blog secreto
Use os serviços gratuitos do Wordpress ou do Blogger para criar um blog privado (em ambos, há a opção de não deixá-lo público) e comece a escrever com bastante freqüência sobre sua relação com ela. Relate sensações, percepções e pensamentos que não contou na hora. Descreva em detalhes a noite passada. Escreva para você mesmo, para ela, para o mundo. Alterne discursos com a idéia de que ela acessará o blog depois de algum tempo – é isso que difere essa sugestão de uma outra mais simples que descrevi há algum tempo.
A declaração pode durar um mês ou um ano, você decide. Já imaginou um presente assim de 10 anos? É claro que você corre o risco de levar um pé na bunda antes de revelar o blog… Ainda assim, você terá treinado um amor desprendido de expectativas, que se declara sem sequer precisar que o outro nos ouça.
4. Dança de salão às escondidas
Essa é simples: sem que ela saiba, matricule-se em um curso de dança de salão. Diga que seu chefe inventou reuniões semanais ou simule qualquer situação do tipo. Para acelerar seu aprendizado, escolha apenas um ritmo. Salsa e gafieira são ótimas pedidas. Tango já será mais complicado se sua mulher não tiver experiência alguma. Depois de uns 6 meses, vá com ela a um lugar que toca o que você já sabe e convide-a para dançar.
Atenção: essa sugestão não é recomendada para mulheres! É muito provável que o homem sinta-se constransgido por não conseguir acompanhar e ainda por cima fique nervoso ao saber que sua mulher ficou esse tempo todo dançando com outros. Parece machista, mas é muito mais fácil uma mulher inexperiente ser conduzida por um bom cavalheiro do que um homem iniciante dançar com uma dama treinada.
5. Os dias da semana
Um presente para cada dia da semana. Na segunda, ela desfrutará de um, na terça de outro, e assim por diante. Quinta-feira pode ser um livro de poesia, sexta-feira uma calcinha quase transparente, sábado um sabonete de menta… O presente é menos importante do que a idéia de acompanhá-la em seu cotidiano, expandindo sua presença na vida de sua parceira.
6. Transformação
Pare de fumar, coma menos, faça musculação, abandone a raiva ou o orgulho, medite, aprenda alguma coisa, desaprenda várias outras… Transforme-se para ela, deixe que sua vida se torne um presente a ser lentamente degustado por sua mulher. Porque presente bom não se dá, se oferece.
Para conseguir tais transformações, use toda aquela energia e potência que surgia bem no início da relação, quando você queria sexo e fazia de tudo para levá-la para a cama, lembra? Você passava dias inteiros planejando noites inesquecíveis, se vestia bem, comprava presentes, dirigia por horas seguidas, abria portas, perguntava “Está frio demais aqui dentro?”, e tudo aquilo que um homem presente e atento faz. A potência que deseja sexo é a mesma que deseja amar. E amar é isso: agir a favor da felicidade do outro.
7. Agenda
Compre uma agenda e a preencha inteira, dia após dia, com anotações, declarações, lembranças (”Nesse dia, há dois anos, nós fizemos…”), coisas que você quer fazer com ela em tal dia, conduções (”Ouça agora essa música…”), loucuras, propostas e insights. No início de janeiro, entregue e peça que ela use como uma agenda convencional e também como uma forma de dialogar com seus escritos.
8. Album erótico
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O processo, não o resultado, é a melhor parte dessa declaração. É gostoso pedir as poses, olhar, fotografar, beijar, deixar a câmera cair, editar, imprimir, montar, entregar… Tire fotos de ângulos improváveis, use o Photoshop e faça surgir uma mulher que nem você conhece. A nudez é opcional. Você pode mostrar para ela enquanto edita ou somente ao final. Você pode pedir para que ela faça poses ou pode fazer tudo em absoluto segredo (enquanto ela dorme, por exemplo).
9. Mestre-cuca
Assim como o curso de dança de salão proporciona uma noite de giros e pernadas, um curso de culinária pode promover alguns jantares deliciosos. Escolha o tipo e se matricule: tailandesa, japonesa, árabe, francesa… Tudo em segredo para a grande surpresa, claro.
10. Outra luz na Avenida Paulista
É uma pena que não consegui fazer essa declaração! Preparei tudo, escrevi, planejei… Mas sabe quando a temperatura muda abruptamente? No dia escolhido, a logística não permitiu; no seguinte, já não havia mais espaço. Com declarações, o momento é talvez o mais importante de todos os fatores. Uma mesma ação pode causar prazer ou desconforto, dependendo da temperatura da relação.
A idéia é usar um vasto espaço público significativo para o casal e fazer dele um ambiente imersivo para o amor. Escreva um texto e divida-o em vários cartazes (poucas palavras por cartaz e reticências). Vá ao local no fim da tarde. Leve algum tipo de cola ou fita adesiva. Planeje um percurso e saia colando cartazes em locais protegidos e estratégicos. Marque de encontrá-la em algum lugar perto do início do percurso (após o pôr-do-Sol), invente algum programa que justifique uma caminhada e conduza-a pelos cartazes usando uma lanterna. Peça a ela silêncio e vá lentamente focando cada um dos cartazes. No fim, você pode deixar as últimas palavras por baixo da sua camiseta (e apontar a lanterna para si próprio) ou simplesmente apontar para o céu – depende do texto, dos caminhos do seu amor por ela.
Eu escolheria a Avenida Paulista e deixaria também alguns cartazes perdidos em arbustos ou dentro de alguns locais (prateleiras ou bancos na livraria Cultura, por exemplo). Seria sábado à noite, com muito movimento e vida ao redor. Como perdi minha chance, ofereço a idéia para que outros possam fazê-lo. O que importa não é quem faz, o que importa é a abertura impessoal que brota disso.
Para quem quiser pedir em casamento, há um outro fim para essa declaração. Converse com umas 20 pessoas (estranhos, se tiver coragem e dinheiro, ou amigos) e peça para que elas fiquem no final do percurso com cartazes em mãos, todos com a mesma pergunta: “Quer casar comigo?”. Eles serão a sua voz, uma expansão de seu corpo. Após a caminhada com o texto preparatório, você chega com sua mulher e dá um sinal: todos se agrupam de repente e mostram os cartazes. Serão 20 “Quer casar comigo?” direcionados a ela! Aí basta se ajoelhar, tirar a aliança do bolso
sábado, 22 de novembro de 2008
tipos de amores
Agora em agosto, Flávio Gikovate dará um curso com o seguinte título: “Egoístas, generosos e justos: o amor nas relações do cotidiano”. A idéia é criticar o que eu chamaria de relação de conveniência, aquela na qual o obstáculo de um se acopla com o obstáculo do outro, o karma de um complementa o karma do outro. Gikovate explora as relações de conveniência utilizando o exemplo do egoísta e do generoso e oferece uma saída no que ele chama de relação entre pessoas justas:
“O justo é essencialmente maduro e bem constituído em sua individualidade. Pode muito bem ficar sozinho. Se optar por um relacionamento amoroso, não agirá nem com a imaturidade e dependência prática do egoísta — que costumava ser chamado de tipo narcisista, o que sempre aumentou a confusão a respeito do uso deste termo — e nem com a condescendência que deriva da dependência emocional do generoso. Não terá medo da fusão romântica porque o individualismo predomina sobre o amor. Acabará por estabelecer um novo tipo de aliança amorosa, mais parecida com a amizade — menos possessiva e nada dominadora — que tenho chamado de +amor, ou seja, mais do que amor. Trata-se da proposição de um novo tipo de romance adaptável aos novos tempos, igualitários.” (Gikovate, 2003)
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A relação de conveniência é baseada na mediocridade, no pior de cada ser (quando olhamos para nossas relações, é dolorido perceber como isso é verdade!). Ela não proporciona transformação pois para ser sustentada exige uma espécie de acomodação em nossas fixações neuróticas. Uma pessoa carente, por exemplo, se encanta com aquele que, por medo de ser rejeitado, oferece proteção e segurança de um modo impulsivo e irracional. Elas se apaixonam e se “amam” sem saber por quê.
Não vemos o outro em nenhum momento, pois estamos fascinados pela sensação que ele nos provoca. A prisão narcísica é não amar verdadeiramente o outro, mas o próprio “eu” que ele faz surgir. Contardo Calligaris chama isso de “miséria amorosa ordinária”, na qual “amar significa pedir ao outro o que a gente quer. Ou, pior ainda, pedir-lhe aquela ‘coisa’ de que a gente precisa” (Calligaris, 2005).
Muitas pessoas nunca conheceram uma relação que fugisse a esse padrão. Para elas, a relação de conveniência é tudo o que há, a única possível, onipresente em seus pais, amigos e em todo o ambiente interpessoal ao seu redor. Por isso, é nosso dever dar o exemplo e oferecer ao mundo uma relação de transformação na qual cada um dos parceiros diz: “para te amar eu me transformo, para te amar eu nasço novamente, para te amar eu manifesto o melhor de mim; e ao me transformar eu te amo ainda mais, ao nascer de novo vejo ainda mais sua beleza, ao dar o melhor de mim vejo ainda mais o melhor de você”. Eis o círculo virtuoso do amor, paradoxalmente assim explicado: “eu te amo, e ao te amar acabo te amando ainda mais”.
Enquanto a relação de conveniência já está sempre pronta e estamos sempre preparados para ela, a relação de transformação exige uma construção dedicada, uma forma de treinamento mútuo, de elaboração artística. Não é um caminho fácil mas é o que verdadeiramente desejamos até quando perdemos tempo escolhendo relações tolas que não exigem o melhor de nós. Esse caminho de liberdade e exploração, como bem ensina o poeta Antonio Machado, se faz ao caminhar (”Camiñante, no hay camiño, el camiño se hace al camiñar”). Ainda que o tenhamos construído uma vez com uma parceira, a segunda vez não chega nunca a ser uma repetição, ao contrário do que acontece com relações kármicas.
Prosseguindo com a comparação (pois sempre vemos pelo contraste), percebemos que a relação convencional é uma aproximação simples de mundos: “eu gosto de cinema europeu, você também, eu gosto de música árabe, você também”. Não há real penetração, não há compartilhamento, apenas uma interface cômoda e confortante. Uma outra possibilidade, muito mais deliciosa, é não apenas aproximar os mundos, mas cada um dos parceiros penetrar os mundos do outro e simultaneamente entregar seus mundos para que possam ser invadidos pelo outro. Mais ainda: não apenas abrir-se e penetrar, mas criar novos mundos, dar à luz, engravidar-se do outro e de si mesmo.
Um novo mundo criado a dois é uma das bases de uma relação duradoura e autêntica. O curioso é que, para que isso aconteça, é necessário que cada um dos parceiros se estique, se reconfigure, expanda seu corpo em um novo espaço, enfim… se transforme! Esses novos mundos são espaços nos quais nascemos com novas identidades, são espaços nos quais podemos explorar ainda mais nosso amor, nos permitem ser mais, existir mais, nos conectar de outros modos não só com o outro mas com todo o mundo. Esse é um tipo especial de intimidade a dois que nos deixa íntimos de tudo mais, de todos os seres, de cada cena da vida, de cada olhar e até de nós mesmos.
Será que desejamos manter nossos obstáculos como base de nossos relacionamentos? Queremos amar e ser amados com apenas 20% de nosso ser? Buscamos um parceiro para quê mesmo? Permanecemos com ele por quê mesmo? Quais as bases de nossas relações? Estamos realmente dispostos a abandonar nossas relações de conveniência? Dispostos a nos deixar nascer em frente ao outro e fazê-lo nascer diante de nós, aprendendo lentamente a sonhar juntos?
“O justo é essencialmente maduro e bem constituído em sua individualidade. Pode muito bem ficar sozinho. Se optar por um relacionamento amoroso, não agirá nem com a imaturidade e dependência prática do egoísta — que costumava ser chamado de tipo narcisista, o que sempre aumentou a confusão a respeito do uso deste termo — e nem com a condescendência que deriva da dependência emocional do generoso. Não terá medo da fusão romântica porque o individualismo predomina sobre o amor. Acabará por estabelecer um novo tipo de aliança amorosa, mais parecida com a amizade — menos possessiva e nada dominadora — que tenho chamado de +amor, ou seja, mais do que amor. Trata-se da proposição de um novo tipo de romance adaptável aos novos tempos, igualitários.” (Gikovate, 2003)
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A relação de conveniência é baseada na mediocridade, no pior de cada ser (quando olhamos para nossas relações, é dolorido perceber como isso é verdade!). Ela não proporciona transformação pois para ser sustentada exige uma espécie de acomodação em nossas fixações neuróticas. Uma pessoa carente, por exemplo, se encanta com aquele que, por medo de ser rejeitado, oferece proteção e segurança de um modo impulsivo e irracional. Elas se apaixonam e se “amam” sem saber por quê.
Não vemos o outro em nenhum momento, pois estamos fascinados pela sensação que ele nos provoca. A prisão narcísica é não amar verdadeiramente o outro, mas o próprio “eu” que ele faz surgir. Contardo Calligaris chama isso de “miséria amorosa ordinária”, na qual “amar significa pedir ao outro o que a gente quer. Ou, pior ainda, pedir-lhe aquela ‘coisa’ de que a gente precisa” (Calligaris, 2005).
Muitas pessoas nunca conheceram uma relação que fugisse a esse padrão. Para elas, a relação de conveniência é tudo o que há, a única possível, onipresente em seus pais, amigos e em todo o ambiente interpessoal ao seu redor. Por isso, é nosso dever dar o exemplo e oferecer ao mundo uma relação de transformação na qual cada um dos parceiros diz: “para te amar eu me transformo, para te amar eu nasço novamente, para te amar eu manifesto o melhor de mim; e ao me transformar eu te amo ainda mais, ao nascer de novo vejo ainda mais sua beleza, ao dar o melhor de mim vejo ainda mais o melhor de você”. Eis o círculo virtuoso do amor, paradoxalmente assim explicado: “eu te amo, e ao te amar acabo te amando ainda mais”.
Enquanto a relação de conveniência já está sempre pronta e estamos sempre preparados para ela, a relação de transformação exige uma construção dedicada, uma forma de treinamento mútuo, de elaboração artística. Não é um caminho fácil mas é o que verdadeiramente desejamos até quando perdemos tempo escolhendo relações tolas que não exigem o melhor de nós. Esse caminho de liberdade e exploração, como bem ensina o poeta Antonio Machado, se faz ao caminhar (”Camiñante, no hay camiño, el camiño se hace al camiñar”). Ainda que o tenhamos construído uma vez com uma parceira, a segunda vez não chega nunca a ser uma repetição, ao contrário do que acontece com relações kármicas.
Prosseguindo com a comparação (pois sempre vemos pelo contraste), percebemos que a relação convencional é uma aproximação simples de mundos: “eu gosto de cinema europeu, você também, eu gosto de música árabe, você também”. Não há real penetração, não há compartilhamento, apenas uma interface cômoda e confortante. Uma outra possibilidade, muito mais deliciosa, é não apenas aproximar os mundos, mas cada um dos parceiros penetrar os mundos do outro e simultaneamente entregar seus mundos para que possam ser invadidos pelo outro. Mais ainda: não apenas abrir-se e penetrar, mas criar novos mundos, dar à luz, engravidar-se do outro e de si mesmo.
Um novo mundo criado a dois é uma das bases de uma relação duradoura e autêntica. O curioso é que, para que isso aconteça, é necessário que cada um dos parceiros se estique, se reconfigure, expanda seu corpo em um novo espaço, enfim… se transforme! Esses novos mundos são espaços nos quais nascemos com novas identidades, são espaços nos quais podemos explorar ainda mais nosso amor, nos permitem ser mais, existir mais, nos conectar de outros modos não só com o outro mas com todo o mundo. Esse é um tipo especial de intimidade a dois que nos deixa íntimos de tudo mais, de todos os seres, de cada cena da vida, de cada olhar e até de nós mesmos.
Será que desejamos manter nossos obstáculos como base de nossos relacionamentos? Queremos amar e ser amados com apenas 20% de nosso ser? Buscamos um parceiro para quê mesmo? Permanecemos com ele por quê mesmo? Quais as bases de nossas relações? Estamos realmente dispostos a abandonar nossas relações de conveniência? Dispostos a nos deixar nascer em frente ao outro e fazê-lo nascer diante de nós, aprendendo lentamente a sonhar juntos?
dinamica do amor
No último post (”Amor é coisa que não se recebe“), falei sobre a dinâmica da passividade e sobre como podemos descobrir nossa potência de amar.
Autonomia, no entanto, não significa auto-suficiência ou isolamento. Quando já praticamos esse amor livre, o que acontece quando iniciamos uma nova relação?
Uma mulher é o grande espaço para um homem praticar amor na sua forma mais incorporada, fascinante e desafiadora. Ele pode não precisar de uma mulher para ser feliz, porém a entrega feminina é o convite perfeito para que ele penetre tudo com seu amor e treine sua liberdade de se manter imóvel diante das tempestades e oscilações do feminino. Isto é, ele pode ser mestre em técnicas de apnéia, mergulho, canoagem ou surf, mas como praticar sem rios e oceanos?
Um homem, por sua vez, é também apenas um suporte para a mulher que se descobriu fonte de amor, que ficou inseparável da própria dança da vida. Ainda que ela não precise do amor de seu homem, é quando ela é conduzida com leveza e vigor que sua capacidade de entrega, radiância e amor pode se expressar desimpedidamente. Em outras palavras, ela pode saber movimentar seu corpo de mil maneiras no samba de gafieira, mas é preciso que haja música, espaço e alguém para conduzi-la.
O masculino precisa tocar o feminino para vir à tona e existir com força total. O feminino chama pelo masculino para conseguir saltitar e se desenrolar com toda a energia que a vida pode agüentar.
A autonomia do amor se expressa quando o amor não vai nem vem, nem se dá tampouco se recebe. Primeiro, sentimos o amor vindo de fora, recebemos e nos sentimos amados. Depois, percebemos que podemos agir, sentimos o amor por dentro e o expandimos aos outros. Até que, enfim, caímos sentados sobre a ilusão de nossas paredes e nos abandonamos dentro do amor. Paramos de tentar e deixamos o amor com ele mesmo… Depois dessa desistência, não há mais esforço para amar o outro. Há o amor e sua circulação, muito bem descrita pelo mestre zen Shunryu Suzuki na obra-prima Mente Zen, Mente de Principiante:
“O mundo interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos “mundo interior” e “mundo exterior”, mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa “eu respiro”, o “eu” está a mais. Não há um “você” para dizer “eu”. O que chamamos de “eu” é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo.”
Essa respiração do amor move homens e mulheres de modos distintos. Ainda que, de uma perspectiva absoluta, não haja eu e outro, vida e morte, dentro e fora, nos mundos relativos há uma dinâmica lúdica entre os opostos. A não-dualidade é apenas o pano de fundo para incontáveis dualidades e pares de seres e fenômenos que vão surgir em cada vaivém. Ora, esse movimento é tão poderoso que produz bebês, if you know what I mean…
O livre vaivém atua no homem que é capaz de viver com um amor autônomo instalado no meio do peito. Tudo o que ele quer é uma mulher que silenciosamente se entregue: “Eu sou sua, eu me rendo ao amor que vem de você, me conduza, dance comigo”. Ao oferecer seu melhor, ele faz uma exigência sutil. Sua proposta não aceita nada menos do que a completa liberação de todas as energias, ânimos e curvas que ela tem a oferecer.
Uma mulher cujo brilho é sua forma de amar os outros sem que ela sequer tenha de se aproximar de alguém, tudo o que ela quer é um homem que chegue sem pedir licença: “Eu me livrei do medo e quero ver até onde vai sua beleza. Se você já está dançando, pode soltar o cabelo e começar a girar”. Sua presença também exige. Sem liberdade e vigor, dificilmente um homem conseguirá permanecer ao seu lado.
Quando eles se encontram, a profundidade masculina é o par perfeito para a radiância feminina. A liberdade dele é o espaço para o espiralar do amor dela. Ele fica, presente, imóvel. Ela dança, graciosa, cintilante. Juntos, eles continuam amando de modo autônomo como já faziam com qualquer um, não há diferença. Movem-se a favor dos outros, para que todos se desdobrem, aflorem. Sem que ninguém nunca chegue a receber algo, ambos sentem prazer ao oferecer amor irrestrito. Um para o outro, e ambos para o mundo.
Na relação lúcida, ainda que a mulher anseie por alguém ou um homem deseje um corpo feminino, quem faz as exigências é o amor, não as identidades específicas ou personagens. Ambos estão rendidos não um ao outro, mas ao amor. Se pudéssemos ouvi-los, seria algo assim: “Aquilo que não sou ama, por mim, em você, tudo aquilo que você não é”.
* A imagem é do gênio M.C. Escher, Drawing Hands (1948). Sou fascinado por ela. Se pudesse, usaria para explicar praticamente todas as idéias que passam pela minha mente.
Autonomia, no entanto, não significa auto-suficiência ou isolamento. Quando já praticamos esse amor livre, o que acontece quando iniciamos uma nova relação?
Uma mulher é o grande espaço para um homem praticar amor na sua forma mais incorporada, fascinante e desafiadora. Ele pode não precisar de uma mulher para ser feliz, porém a entrega feminina é o convite perfeito para que ele penetre tudo com seu amor e treine sua liberdade de se manter imóvel diante das tempestades e oscilações do feminino. Isto é, ele pode ser mestre em técnicas de apnéia, mergulho, canoagem ou surf, mas como praticar sem rios e oceanos?
Um homem, por sua vez, é também apenas um suporte para a mulher que se descobriu fonte de amor, que ficou inseparável da própria dança da vida. Ainda que ela não precise do amor de seu homem, é quando ela é conduzida com leveza e vigor que sua capacidade de entrega, radiância e amor pode se expressar desimpedidamente. Em outras palavras, ela pode saber movimentar seu corpo de mil maneiras no samba de gafieira, mas é preciso que haja música, espaço e alguém para conduzi-la.
O masculino precisa tocar o feminino para vir à tona e existir com força total. O feminino chama pelo masculino para conseguir saltitar e se desenrolar com toda a energia que a vida pode agüentar.
A autonomia do amor se expressa quando o amor não vai nem vem, nem se dá tampouco se recebe. Primeiro, sentimos o amor vindo de fora, recebemos e nos sentimos amados. Depois, percebemos que podemos agir, sentimos o amor por dentro e o expandimos aos outros. Até que, enfim, caímos sentados sobre a ilusão de nossas paredes e nos abandonamos dentro do amor. Paramos de tentar e deixamos o amor com ele mesmo… Depois dessa desistência, não há mais esforço para amar o outro. Há o amor e sua circulação, muito bem descrita pelo mestre zen Shunryu Suzuki na obra-prima Mente Zen, Mente de Principiante:
“O mundo interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos “mundo interior” e “mundo exterior”, mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa “eu respiro”, o “eu” está a mais. Não há um “você” para dizer “eu”. O que chamamos de “eu” é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo.”
Essa respiração do amor move homens e mulheres de modos distintos. Ainda que, de uma perspectiva absoluta, não haja eu e outro, vida e morte, dentro e fora, nos mundos relativos há uma dinâmica lúdica entre os opostos. A não-dualidade é apenas o pano de fundo para incontáveis dualidades e pares de seres e fenômenos que vão surgir em cada vaivém. Ora, esse movimento é tão poderoso que produz bebês, if you know what I mean…
O livre vaivém atua no homem que é capaz de viver com um amor autônomo instalado no meio do peito. Tudo o que ele quer é uma mulher que silenciosamente se entregue: “Eu sou sua, eu me rendo ao amor que vem de você, me conduza, dance comigo”. Ao oferecer seu melhor, ele faz uma exigência sutil. Sua proposta não aceita nada menos do que a completa liberação de todas as energias, ânimos e curvas que ela tem a oferecer.
Uma mulher cujo brilho é sua forma de amar os outros sem que ela sequer tenha de se aproximar de alguém, tudo o que ela quer é um homem que chegue sem pedir licença: “Eu me livrei do medo e quero ver até onde vai sua beleza. Se você já está dançando, pode soltar o cabelo e começar a girar”. Sua presença também exige. Sem liberdade e vigor, dificilmente um homem conseguirá permanecer ao seu lado.
Quando eles se encontram, a profundidade masculina é o par perfeito para a radiância feminina. A liberdade dele é o espaço para o espiralar do amor dela. Ele fica, presente, imóvel. Ela dança, graciosa, cintilante. Juntos, eles continuam amando de modo autônomo como já faziam com qualquer um, não há diferença. Movem-se a favor dos outros, para que todos se desdobrem, aflorem. Sem que ninguém nunca chegue a receber algo, ambos sentem prazer ao oferecer amor irrestrito. Um para o outro, e ambos para o mundo.
Na relação lúcida, ainda que a mulher anseie por alguém ou um homem deseje um corpo feminino, quem faz as exigências é o amor, não as identidades específicas ou personagens. Ambos estão rendidos não um ao outro, mas ao amor. Se pudéssemos ouvi-los, seria algo assim: “Aquilo que não sou ama, por mim, em você, tudo aquilo que você não é”.
* A imagem é do gênio M.C. Escher, Drawing Hands (1948). Sou fascinado por ela. Se pudesse, usaria para explicar praticamente todas as idéias que passam pela minha mente.
um novo homem
Você é um romântico sem pegada ou um Chuck Norris tentando entender poesia?
Mais do que estereótipos, “machão” e “sensível” são duas posturas extremas diante da energia feminina. Alguns tendem à primeira, outros não sabem como ir além da segunda. Haveria um modo de integrar o melhor dos dois mundos? Será que existe algum homem capaz de conversar sobre o Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, sem deixar de meter porrada em quem mexer com sua mulher?
Os dois comportamentos não são mentais. Chuck Norris ou Zach Braff (mais pelos filmes do que pela série Scrubs) apresentam posições corporais diferentes. O contraste não se encontra tanto no que eles pensam quanto no posicionamento que eles assumem na relação com mulheres, artes, elementos da natureza, formas e brilhos.
Com uma mulher ou com uma música à frente, o machão se distancia, vigia, resmunga. A música toca, ele fica estático e tira sarro. Deseja controle sobre o feminino. Sua lógica é a da posse. Todos os fenômenos são capturados, analisados, conquistados. No oceano do feminino, o homem machão busca dinheiro, carros, poder, fama, mulheres. A meta é conseguir o máximo possível de objetos, na esperança de enfim suprir o vazio de um corpo sem energia vital. Por evitar o contato direto com o feminino (interno e externo), ele age violentamente. É uma questão de sobrevivência: para inflar seu corpo de vida, ele agride, machuca, tira sangue da natureza, da sociedade, de sua mulher…
A lógica do homem sensível é a do ser. Em um universo de movimentos radiantes, ele se deixa envolver, se aproxima, sorri, chora. A música toca, ele vai junto e dança. O sensível busca desenvolvimento intelectual e emocional. Ao oferecer seu feminino, porém, ele corre o risco de ser rejeitado: energia feminina é o que as mulheres já têm. Quando isso acontece, assim que vê nela o que pensava ser dele, ele se sente roubado, fraco, apavorado. À medida que se equipara à luminosidade externa, começam a surgir medos, inseguranças e expectativas. Não existe homem sensível que nunca se sentiu impotente e dominado. Ou pior: ele vem com o feminino, ela incorpora o masculino e o humilha. O processo de identificação com os fenômenos retira seu poder e muitas vezes o deixa refém do que lhe acontece. Não é raro ver homens surtando por questões mínimas…
Como aprender com o machão
O aspecto saudável do machão é o desenvolvimento da presença. O mundo se desespera e colapsa, ele permanece imóvel. Sua mulher grita e esperneia, ele fica. Um exemplo de liberdade também. Por não se identificar com o feminino, é capaz de cortar e desbravar. Por não se distrair, ele passa anos meditando, testando vacinas, produzindo chips, vencendo corridas. Seu arquétipo é o do herói, guerreiro ou samurai, que abandona a cidade natal, segue sua missão e volta trazendo troféus, remédios, conhecimentos. Para o sensível, o machão é o antídoto da indecisão. É encarnando essa postura rígida que ele retomará o poder sobre sua vida.
Como aprender com o sensível
No outro extremo, a qualidade positiva do homem sensível é o cultivo de uma profundidade sem limites. Ele é capaz de se comunicar em qualquer linguagem, se envolver com todas as danças, se emocionar com o amplo espectro das histórias humanas. Sua habilidade é movimentar energias, substâncias, ventos, sons… Manipular tudo o que se move. Seu arquétipo é o do xamã, bruxo ou mago, que se entrega ao universo para poder falar a língua dos animais. Ele sente a dor de todos os seres e por isso pode agir por dentro do mundo, restaurar tecidos, curar. Para o machão, o sensível é o antídoto da violência. Ele ensina que, para evitar o estupro, é preciso ser invadido pelo feminino antes de penetrar uma mulher.
Rumo a uma nova espécie de homem
Em uma abordagem preliminar, poderíamos sugerir que os homens sensíveis treinassem a postura do machão. Não é uma má idéia começar a investir na bolsa, beber pinga, bater o copo na mesa, ficar calado e ser grosso, aprender boxe, PHP, jogar rugby. Já os homens brutos experimentariam a atitude do sensível. Seria engraçado vê-los assistir a filmes iranianos, recitar Rilke, dançar sapateado, freqüentar cursos de culinária tailandesa, vinhos, teatro clown!
Tal processo mimético, no entanto, é apenas um caminho grosseiro de transformação. Uma abordagem mais sofisticada poderia apostar na própria fonte dos problemas. Ou seja, se você é machão, vá até o fim; se é sensível, explore seus limites. A postura desafiadora do machão esmagará todas as metas medíocres até que reste apenas um objetivo transcendental, a missão do herói. O sensível também. Com sua docilidade, se conectará com tudo e com todos, para enfim entender o código da Matrix e virar xamã.
Ninguém pode prever os resultados da união do herói com o xamã. O fato é que sozinhos eles são impotentes diante de uma única mulher. Sem sensibilidade, o direcionamento do machão é cego: ele a leva para jantar em um restaurante que ela já disse odiar mas ele esqueceu. Sem direcionamento, a sensibilidade também não resolve: ele sabe qual o restaurante dos sonhos, mas não tem dinheiro ou coragem para levá-la.
A flexibilidade do sensível facilmente se deixa dominar. A rigidez do machão obstrui a livre manifestação dos encantos femininos. Nenhum dos dois é capaz de conduzir sua dama. Um trava, outro solta demais. Um tira a liberdade, outro não oferece segurança. Com nenhum dos dois ela consegue girar! A condução exige o melhor de ambos: abertura e sensibilidade com vigor e direcionamento, presença imóvel com profundidade nômade.
Praticar a postura que conduz exige o fim da oposição proposta nesse texto. Suspendemos o embate, a integração começa. Retire o “X” da imagem acima… Ali está Mr. George Clooney, junto com mais dois exemplos de homens da nova geração.
A nós homens, só resta continuar aprendendo com o velho Chuck. Você já decorou pelo menos uma das verdades do Chuck Norris? Está na hora de aplicá-las na vida… Quem disse que Chuck Norris não é o primeiro dos machões românticos?
No dia dos namorados, Chuck Norris dá para a sua mulher o coração ainda batendo de um de seus inimigos. Para ser mais romântico, Chuck Norris acredita que todo dia é dia dos namorados.
Mais do que estereótipos, “machão” e “sensível” são duas posturas extremas diante da energia feminina. Alguns tendem à primeira, outros não sabem como ir além da segunda. Haveria um modo de integrar o melhor dos dois mundos? Será que existe algum homem capaz de conversar sobre o Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, sem deixar de meter porrada em quem mexer com sua mulher?
Os dois comportamentos não são mentais. Chuck Norris ou Zach Braff (mais pelos filmes do que pela série Scrubs) apresentam posições corporais diferentes. O contraste não se encontra tanto no que eles pensam quanto no posicionamento que eles assumem na relação com mulheres, artes, elementos da natureza, formas e brilhos.
Com uma mulher ou com uma música à frente, o machão se distancia, vigia, resmunga. A música toca, ele fica estático e tira sarro. Deseja controle sobre o feminino. Sua lógica é a da posse. Todos os fenômenos são capturados, analisados, conquistados. No oceano do feminino, o homem machão busca dinheiro, carros, poder, fama, mulheres. A meta é conseguir o máximo possível de objetos, na esperança de enfim suprir o vazio de um corpo sem energia vital. Por evitar o contato direto com o feminino (interno e externo), ele age violentamente. É uma questão de sobrevivência: para inflar seu corpo de vida, ele agride, machuca, tira sangue da natureza, da sociedade, de sua mulher…
A lógica do homem sensível é a do ser. Em um universo de movimentos radiantes, ele se deixa envolver, se aproxima, sorri, chora. A música toca, ele vai junto e dança. O sensível busca desenvolvimento intelectual e emocional. Ao oferecer seu feminino, porém, ele corre o risco de ser rejeitado: energia feminina é o que as mulheres já têm. Quando isso acontece, assim que vê nela o que pensava ser dele, ele se sente roubado, fraco, apavorado. À medida que se equipara à luminosidade externa, começam a surgir medos, inseguranças e expectativas. Não existe homem sensível que nunca se sentiu impotente e dominado. Ou pior: ele vem com o feminino, ela incorpora o masculino e o humilha. O processo de identificação com os fenômenos retira seu poder e muitas vezes o deixa refém do que lhe acontece. Não é raro ver homens surtando por questões mínimas…
Como aprender com o machão
O aspecto saudável do machão é o desenvolvimento da presença. O mundo se desespera e colapsa, ele permanece imóvel. Sua mulher grita e esperneia, ele fica. Um exemplo de liberdade também. Por não se identificar com o feminino, é capaz de cortar e desbravar. Por não se distrair, ele passa anos meditando, testando vacinas, produzindo chips, vencendo corridas. Seu arquétipo é o do herói, guerreiro ou samurai, que abandona a cidade natal, segue sua missão e volta trazendo troféus, remédios, conhecimentos. Para o sensível, o machão é o antídoto da indecisão. É encarnando essa postura rígida que ele retomará o poder sobre sua vida.
Como aprender com o sensível
No outro extremo, a qualidade positiva do homem sensível é o cultivo de uma profundidade sem limites. Ele é capaz de se comunicar em qualquer linguagem, se envolver com todas as danças, se emocionar com o amplo espectro das histórias humanas. Sua habilidade é movimentar energias, substâncias, ventos, sons… Manipular tudo o que se move. Seu arquétipo é o do xamã, bruxo ou mago, que se entrega ao universo para poder falar a língua dos animais. Ele sente a dor de todos os seres e por isso pode agir por dentro do mundo, restaurar tecidos, curar. Para o machão, o sensível é o antídoto da violência. Ele ensina que, para evitar o estupro, é preciso ser invadido pelo feminino antes de penetrar uma mulher.
Rumo a uma nova espécie de homem
Em uma abordagem preliminar, poderíamos sugerir que os homens sensíveis treinassem a postura do machão. Não é uma má idéia começar a investir na bolsa, beber pinga, bater o copo na mesa, ficar calado e ser grosso, aprender boxe, PHP, jogar rugby. Já os homens brutos experimentariam a atitude do sensível. Seria engraçado vê-los assistir a filmes iranianos, recitar Rilke, dançar sapateado, freqüentar cursos de culinária tailandesa, vinhos, teatro clown!
Tal processo mimético, no entanto, é apenas um caminho grosseiro de transformação. Uma abordagem mais sofisticada poderia apostar na própria fonte dos problemas. Ou seja, se você é machão, vá até o fim; se é sensível, explore seus limites. A postura desafiadora do machão esmagará todas as metas medíocres até que reste apenas um objetivo transcendental, a missão do herói. O sensível também. Com sua docilidade, se conectará com tudo e com todos, para enfim entender o código da Matrix e virar xamã.
Ninguém pode prever os resultados da união do herói com o xamã. O fato é que sozinhos eles são impotentes diante de uma única mulher. Sem sensibilidade, o direcionamento do machão é cego: ele a leva para jantar em um restaurante que ela já disse odiar mas ele esqueceu. Sem direcionamento, a sensibilidade também não resolve: ele sabe qual o restaurante dos sonhos, mas não tem dinheiro ou coragem para levá-la.
A flexibilidade do sensível facilmente se deixa dominar. A rigidez do machão obstrui a livre manifestação dos encantos femininos. Nenhum dos dois é capaz de conduzir sua dama. Um trava, outro solta demais. Um tira a liberdade, outro não oferece segurança. Com nenhum dos dois ela consegue girar! A condução exige o melhor de ambos: abertura e sensibilidade com vigor e direcionamento, presença imóvel com profundidade nômade.
Praticar a postura que conduz exige o fim da oposição proposta nesse texto. Suspendemos o embate, a integração começa. Retire o “X” da imagem acima… Ali está Mr. George Clooney, junto com mais dois exemplos de homens da nova geração.
A nós homens, só resta continuar aprendendo com o velho Chuck. Você já decorou pelo menos uma das verdades do Chuck Norris? Está na hora de aplicá-las na vida… Quem disse que Chuck Norris não é o primeiro dos machões românticos?
No dia dos namorados, Chuck Norris dá para a sua mulher o coração ainda batendo de um de seus inimigos. Para ser mais romântico, Chuck Norris acredita que todo dia é dia dos namorados.
leitura para homens
Os dois primeiros itens dessa pequena lista não são novidade para ninguém, mas creio que os homens têm muito a refletir sobre os outros dois. Pelo menos para mim, eles são objeto de contemplação diária! O livro não explica diretamente o significado dessas idéias, ainda que elas permeiem toda a narrativa, todas as experiências da autora. Para quem não leu, vou falar um pouco sobre isso em outra linguagem.
Não levar a sério uma mulher não significa desenvolver uma postura insensível, mas uma sensibilidade mais radical, que ouve atentamente mas mantém uma consciência lúcida diante dos turbilhões femininos sem se deixar levar por eles. Um exemplo simples é saber cortar um momento de tensão (em uma conversa pós-sexo, digamos) que poderia levar a uma briga. Saber agarrá-la, beijá-la, rir dela olhando-a nos olhos e convidando-a a gargalhar também. Ao fazer isso, o homem ganha a confiança de sua mulher, que se sente segura ao saber que quando ela se perder em meio às emoções ele a resgatará com seu amor, com sua sabedoria e sobretudo com sua liberdade.
Não levar a sério é apenas se lembrar a todo momento que as mulheres flutuam: elas não funcionam no âmbito racional verdade/mentira, mas no domínio emocional do “ora sim, ora não”. Quando um homem falha nesse teste, seu coração se fecha e sua parceira percebe que ele foi conduzido pelas flutuações sutis do momento. Ao surgir essa insegurança, ela deixa de confiar totalmente nele e acaba se fechando também.
O quarto item é ainda mais interessante, pois a sensibilidade masculina costuma ser confundida com um respeito excessivo que, em algumas relações, chega a impedir que o homem “sensível” agarre sua mulher e a possuía desesperadamente. Para não ter medo de uma mulher, o homem tem de ser muito corajoso, confiante, seguro – qualidades que o tornam um bom amante. Daí o pedido feminino: “não tenha medo de mim”.
E não só no sexo. Não ter medo é saber ouvi-la por inteiro, penetrar em suas idéias, em seus anseios, olhá-la nos olhos, não ignorar nem 1% de sua alma. Não ter medo é acariciá-la demoradamente, aceitá-la em seu brilho puro e não manter nenhuma postura fixa que possa obstruir a livre manifestação de suas energias femininas.
Uma boa metáfora para esse tipo de amante/parceiro/homem é a mão que faz uma massagem inesquecível: este homem é firme e suave, percorre cada poro e não deixa nada intocado, é sensível mas invasivo, forte e incrivelmente leve, seu peso preenche, sua presença libera.
Não levar a sério uma mulher não significa desenvolver uma postura insensível, mas uma sensibilidade mais radical, que ouve atentamente mas mantém uma consciência lúcida diante dos turbilhões femininos sem se deixar levar por eles. Um exemplo simples é saber cortar um momento de tensão (em uma conversa pós-sexo, digamos) que poderia levar a uma briga. Saber agarrá-la, beijá-la, rir dela olhando-a nos olhos e convidando-a a gargalhar também. Ao fazer isso, o homem ganha a confiança de sua mulher, que se sente segura ao saber que quando ela se perder em meio às emoções ele a resgatará com seu amor, com sua sabedoria e sobretudo com sua liberdade.
Não levar a sério é apenas se lembrar a todo momento que as mulheres flutuam: elas não funcionam no âmbito racional verdade/mentira, mas no domínio emocional do “ora sim, ora não”. Quando um homem falha nesse teste, seu coração se fecha e sua parceira percebe que ele foi conduzido pelas flutuações sutis do momento. Ao surgir essa insegurança, ela deixa de confiar totalmente nele e acaba se fechando também.
O quarto item é ainda mais interessante, pois a sensibilidade masculina costuma ser confundida com um respeito excessivo que, em algumas relações, chega a impedir que o homem “sensível” agarre sua mulher e a possuía desesperadamente. Para não ter medo de uma mulher, o homem tem de ser muito corajoso, confiante, seguro – qualidades que o tornam um bom amante. Daí o pedido feminino: “não tenha medo de mim”.
E não só no sexo. Não ter medo é saber ouvi-la por inteiro, penetrar em suas idéias, em seus anseios, olhá-la nos olhos, não ignorar nem 1% de sua alma. Não ter medo é acariciá-la demoradamente, aceitá-la em seu brilho puro e não manter nenhuma postura fixa que possa obstruir a livre manifestação de suas energias femininas.
Uma boa metáfora para esse tipo de amante/parceiro/homem é a mão que faz uma massagem inesquecível: este homem é firme e suave, percorre cada poro e não deixa nada intocado, é sensível mas invasivo, forte e incrivelmente leve, seu peso preenche, sua presença libera.
vida a dois
Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.
Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.
Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.
Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
vida a dois
Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.
Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.
Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.
Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
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