Acontecer
- o sujeito é passivo, sofre o efeito de algo, de uma ocorrência.
- Não controla a ocorrência – pode controlar ocorrências similares posteriormente.
- O sujeito não produz a ocorrência. – o acontecimento não depende da sua acção.
Conduta humana – corresponde ao comportamento humano
- o sujeito é activo, é a causa da ocorrência, da alteração do real.
- pode ou não controlar e pode ou não ter intenção.
- o sujeito produz – é actor da ocorrência.
Na conduta humana podemos distinguir dois tipos de actos, segundo São Tomás de Aquino:
- Actos do homem e Actos humanos.
ACTOS do HOMEM – são actos comuns aos restantes animais, resultam da natureza corpórea e animal do homem.
- são uma resposta maquinal e corporal, meramente reactiva, a estímulos do meio.
- São actos que o homem não controla nem dirige.
- São actos independentes da vontade da pessoa.
- Identificam-se com o movimento físico sobre o qual não temos intenção e por vezes, tão pouco consciência.
Situações em que se manifestam os actos do homem:
a) movimentos fisiológicos que visam a satisfação de necessidade biológicas:
respiração, digestão, tremer de frio.
b) movimentos físicos inatos de sobrevivência: reflexos motores (mecânicos e reactivos) :
fechar os olhos face a um objecto que se lhes dirige; desviar por o rosto face a uma bola; estender os braços numa queda.
c) movimentos maquinais no geral que resultam da rotina e do hábito ( e vício).
Rotina:
- todos os dias lavar automaticamente os dentes quando nos levantamos.
- o operário que repete mecanicamente na fábrica os mesmos gestos.
Hábito – são comportamentos adquiridos e que se repetem inconscientemente face a um estímulo interior ou exterior:
- quando a nicotina baixa no organismo ( estímulo interior) a dependência faz acender um cigarro ( muitas vezes inconscientemente); o fumador acende um cigarro ( resposta) quando um outro acende ou quando uma situação é desconfortável.
- roer as unhas., tiques...
- o alcoólico bebe automaticamente. – não há controle do homem sobre si mesmo.
ACTOS HUMANOS – são os actos próprios do homem e que o caracterizam como ser humano e a partir deles revela a sua personalidade e se modifica a si mesmo e aos outros.
Os actos humanos:
- são motivados – há uma razão que leva o sujeito a agir (atenção: não confundir motivo e causa)
- são intencionais – o sujeito tem uma intenção, um propósito ao alterar a realidade.
- são controlados e dirigidos – o sujeito tem deles consciência, sobre eles delibera e decide, e controla a sua execução ( realização ).
- têm uma finalidade – são dirigidos a um fim, visam algo que o sujeito tem em mente.
Vamos identificar a acção ou o agir com os actos humanos.
« Uma acção é uma interferência consciente e voluntária do agente no normal decurso das coisas; há uma interferência do agente que tinha intenção de interferir para conseguir que tal evento sucedesse. »
Jesus Mosterín
Acção implica a existência de:
- um agente – que realiza
- uma intenção do agente
- consciência do propósito e da acção em si mesmo.
- uma vontade livre – sem ser forçada, sem ser coagido.
- uma alteração da realidade – só assim se realiza a acção – “de boas intenções está o inferno cheio”
Podemos dizer que a acção ou o agir humano tem um conteúdo e uma forma.
O conteúdo é a alteração do real – o evento produzido.
A forma é a consciência e a intenção que implica atribuir ao agente a autoria da acção – é -lhe imputada a acção - e por isso mesmo a responsabilidade da acção.
O agir nem sempre depende de uma ponderação do sujeito, de uma deliberação ( pesar os prós e os contras ), muitas vezes o homem age sem reflectir, mas não é por isso que deixa de agir consciente e voluntariamente.
Será que tudo o que realizamos ( fazemos) é uma acção?
Será que uma acção pode ser realizada por diferentes movimentos físicos?
Será que o mesmo comportamento ( físico ou verbal) corresponde sempre à mesma acção?
Será que podemos realizar uma acção sem movimento físico? A partir da sua ausência?
Motivo Agente É CAUSA Acção Fim
- Poder de decidir.
- Poder de executar ou não executar LIBERDADE – vontade livre
- Consciência da acção - ausência de coacções
- Intenção. - capacidade de decidir por si (só racional ?)
Os constrangimentos e as coacções reduzem ou eliminam o poder de nos autodeterminarmos
e de decidir ?
Basta que exista um constrangimento sobre a nossa vontade para que deixemos de ser livres?
As fobias?
Obsessões?
Violência exterior?
As normas sociais?
As leis?
A autoridade da sociedade?
Os valores morais?
A acção como caracterizadora do ser humano
Como sabemos, enquanto o animal tem uma natureza determinada e dada à partida, que comanda grande parte do seu desenvolvimento e realizações, o homem tem uma natureza indeterminada e adquirida, que se determina a partir da sociedade e educação que lhe transmitem elementos culturais e modelos de comportamento que aprende por imitação e integração, como é o caso da língua, do pensamento, dos valores, das normas...
Na construção da identidade do homem, grande parte depende dos outros, mas também de si mesmo, pois o seu desenvolvimento físico e intelectual permite-lhe um crescimento de autonomia e capacidade de escolha e decisão. A escolha e a decisão racional São aspectos que caracterizam o homem, uma vez que não dispõe de instintos para reagir. Assim a acção humana é própria do homem e forma-o como humano.
O agir humano supõe consciência, vontade e intenção.
- Uma consciência que pensa a acção e dela tem noção.
- Uma vontade que quer a acção e assim a decide livremente.
- Uma intenção, um propósito que projecta acção, que leva o homem a dirigir-se para...
Numa perspectiva fenomenológica do agir constatamos que a acção tem o seu ponto de partida na consciência e esta lhe consigna um fim. O conteúdo da acção é a determinação, a modificação do objecto pelo sujeito consciente.
Então, se assim é, não basta a vontade e a intenção. Há necessidade para que a acção se realize da modificação do objecto (alteração do real).
Só quando o objecto sofre uma determinação, que não tem por si mesmo, de forma consciente, voluntária e intencional se chama acção, agir, práxis.
Toda a acção supõe o poder do agente que a executa. A utilização desse poder na prossecução da acção supõe um poder de escolha e um poder de decisão consciente e voluntária.
No entanto, a intenção depende de um motivo, que se apresenta como razão que provoca o agir e o justifica.
Motivo
É pelo motivo que justificamos as acções. A resposta ao porquê da acção encontra-se no motivo. O motivo é a razão que provoca a intenção e a acção, é a razão de agir.
O motivo pode por vezes ser inconsciente, ou por detrás de um motivo consciente ocultar-se uma motivação inconsciente.
Distinção entre motivo e causa.
É uma 'quase' causa, mas não é uma causa.
Não é uma causa pois a causa, em sentido científico, é algo que, nas mesmas circunstâncias, produz necessariamente um determinado efeito. Assim a causa x produz sempre o mesmo efeito, y.
Ora face a um determinado motivo o agente pode decidir respostas diferentes, ou até nem responder. Isto significa que o agente tem o poder de decidir (em função de outros motivos, dos seus valores, do seu interesse ) agir de forma própria e distinta de outro sujeito face ao mesmo motivo.
O motivo pode provocar uma acção, mas esta depende sempre do agente que assim decide e detém o poder de a realizar ou não.
Se o motivo for de tal forma forte que não saia fora do controle da consciência e da vontade pode conduzir a comportamentos, mas não podemos classificá-los de acções.
Acção humana ou actos humanos
Motivo:
- Físicos e fisiológicos:
Fome; sede;
sobrevivência física
- Psíquicos
Desejos, impulsos, emoções, pulsões
- Sócio –culturais:
Trabalho; família; afectividade; riqueza; reconhecimento social;
exploração das capacidades; ...
Fim.
Execução da Acção:
Alteração do real
Vontade ( não confundir com desejo )
Vontade – verbo querer - Eu quero...
Vontade – é a capacidade de o homem determinar por si mesmo a sua acção e o seu comportamento.
A vontade é livre enquanto não sofre constrangimentos ou coacções que façam o homem realizar o que não quer.
Há graus de liberdade na vontade, desde a ausência total de liberdade ( anulação total da vontade ) até à vontade sem qualquer constrangimento.
Mas podemos ver também que a vontade pode seguir a razão ou não seguir a razão.
A vontade que segue a razão, cumpre os seus próprios princípios, a sua moral, o seu dever.
O homem não é livre quando tem:
- perda de consciência e da noção da realidade.
- ignorância.
- insanidade – perturbações mentais, intelectuais e psíquicas.
- impossibilidade de escolha.
- incapacidade de decisão racional. (????)
Condicionantes da acção humana
Os elementos constituintes do homem nas diversas áreas que o caracterizam são ao mesmo tempo as grandes condicionantes da sua acção e é claro que por serem seus constituintes não lhes pode fugir. Pois como pode fugir o homem ao seu corpo, à sua psique, ao seu meio geográfico, à sociedade e cultura ou à sua própria história? È pelo facto de o homem ser uma totalidade bio-psiquica-sócio-cultural que não pode deixar de ser condicionado, direccionado e limitado pelos seus constituintes.
As condicionantes são todos os elementos e factores que constituem e circundam o sujeito e o orientam, regulam e estruturam a forma como pensa (e o que pensa), avalia (e o que avalia) e age.
Tipos de condicionantes:
1. Meio Físico e geográficas
2. Corporais-orgânicas e hereditários
3. Psíquicas
4. Sócio-culturais e históricas
5. História individual
Condicionantes Socioculturais
“A cultura representa o conjunto de saberes (técnicos, científicos, filosóficos, senso comum), normas de acção, a experiência comum, transmitida, pela aprendizagem, de geração em geração e que levam o ser humano a realizar-se numa dimensão histórica.”
A cultura substitui as respostas naturais, directas e instintivas, que o homem perdeu ao longo da sua evolução biológica, por respostas criadas e desenvolvidas pelo próprio homem e pela tradição social.
É a sociedade, nas suas várias instâncias – família, escola, grupo de amigos, trabalho, comunicação social – que nos ensinam a falar, a pensar, a relacionarmo-nos, a valorizar e assim nos forma como ser simbólico, ser racional, ser social, ser cultural.
A cultura é adquirida durante o processo de integração do indivíduo na sociedade (socialização) e neste processo aprende a falar numa determinada língua, adquire costumes, hábitos, formas de estar, de conviver, de trabalhar e de agir fruto da tradição cultural do seu povo, aprende normas sociais e morais, regras de convivência e valores.
O homem transporta em si traços culturais que vão desde os que são comuns a toda a sociedade e civilização, até aos que são demarcados regionalmente ou próprios de grupos sociais. Transposta desde os mais profundos – respeito pela vida – até aos mais prosaicos – comer com talheres (resposta criativa a uma necessidade biológica).
Todos estes elementos culturais que formam a sua estrutura espiritual do homem servem de grelha de descodificação e interpretação do real, mas também orientam e limitam o seu pensamento e por isso as suas deliberações, escolhas e decisões.
A integração social necessária a todos os homens é uma forma de normalizar e conformar pensamentos e comportamentos., muitas vezes de forma inconsciente. A sociedade, por muito liberal que seja, impõe normas e formas de pensar, umas vezes inconscientemente, outras de forma coerciva, e por isso conscientes, que o homem não rejeita sob pena de sanções negativas e até de marginalização.
Exemplos:
Substituímos os dedos pelo garfo e faca. A utilização destes utensílios não é universal (China usam pauzinhos) e não é universal a forma como são usados (à direita, à esquerda...)
Não pensamos em casar com 5 mulheres ou homens simultaneamente, pois a nossa cultura nunca nos formou para pensarmos dessa forma o casamento e, no caso de alguém o pensar, não o permite. Então estamos condicionados (inconscientemente) na forma como pensamos e limitados a pensar como pensamos. Por isso estamos condicionados nas nossas escolhas: podemos escolher casar com X ou Z, mas não escolher casar com o grupo de mulheres X(B;C;D;E:F) ou o grupo Z (G;H;I;J;L).
Família
Escola
Grupo de amigos
Media
...
Homem Indeterminado à nascença Sociedade
Natureza adquirida
Normas sociais
Normas de comportamento
Formas de pensar
Valores
Fornece
Integradas e
Interiorizadas
Consciente Inconsciente

Nenhum comentário:
Postar um comentário